A MINHA GRANDE E FRONDOSA SAFIRA

Ainda me lembro de quando o Natal era cem por cento mágico. Eu não sabia como, nem o porquê, mas apareciam sempre presentes debaixo da nossa árvore. Claro, não apareciam lá por acaso, até porque, para isso acontecer, ela tinha de estar montada. O processo todo começava quando, ao findar de novembro, a minha mãe ia buscar à garagem (mais propriamente, o sítio onde guardávamos as tralhas todas ao longo dos anos) a árvore de Natal. 

A nossa árvore era diferente, porque não tinha bolas vermelhas, nem verdes, não era uma árvore de cores comuns. E pensam vocês que aqui a Barbie só ficou assim depois da adolescência! Não. Fiquei assim desde que nasci e desde que a minha mãe arranjou uma árvore roxa. Era um roxo brilhante, com um fundo cor de rosa, como os vestidos de bailes de debutantes ou até mesmo uma safira muito, mas muito escurecida. Essa, meus caros leitores, era a minha árvore de Natal. 

Era uma árvore que custava a alçar e a abater, uma árvore que deixava a minha sala toda suja, cheia de pequenos raminhos que dela caíam. Essa era a minha árvore. Ainda me lembro da minha mãe me dizer que havia uma caixa (normalmente, de sapatos) onde estavam todas as decorações que iríamos usar. Bolas prateadas, roxas, rosa, renas e estrelas, tudo o que uma árvore de Natal poderia usar para se aperaltar para o dia mais esperado do ano... para além do meu aniversário, como é óbvio. A única coisa que nos faltava, ao longo de vários anos, era uma estrela que se encaixasse perfeitamente no topo da nossa árvore.

Era inútil: saíamos para comprar uma estrela, mas não conseguíamos encontrar nenhuma que fosse adequada à nossa árvore roxa. Experimentávamos por uma bola, não funcionava. Experimentei colocar-lhe um enfeite que tinha feito com palha na escola, mas também não funcionou. Meses e meses de buscas incessantes por uma estrela se passaram, e tivemos de mudar de casa.

Quando nos mudámos, a magia do Natal já se tinha ido embora, porque tinha crescido. As bolas roxas e rosa já não faziam sentido, e as estrelinhas prateadas já não brilhavam tanto com a luz dos LED que rodeavam a nossa safira rústica. Nada era como antes, porque tinha crescido. Com esta falta de sentido, a minha mãe decide livrar-se da árvore roxa, o nosso grande e frondoso vestido de baile.

Compramos uma árvore muito mais pequena, que possui uma estrela e, no fim de contas, quando a árvore brilha com as suas pequenas luzinhas e presentes minúsculos cobrem o seu pequeno tronco, apercebo-me de que nunca o Natal fora sobre uma grande e frondosa safira.

Belinha 💗

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